Índia distribuirá berços para pais abandonarem filhas
18.02.2007 - Intenção é diminuir o número de assassinatos de meninas.
No país, pais preferem meninos, que cuidam da família.
Nova Délhi - O Governo indiano distribuirá berços em todos os distritos do país para que os pais possam abandonar ali suas recém-nascidas quando não quiserem criá-las, a fim de aliviar os dois milhões e meio de feticídios e assassinatos de meninas registrados no país a cada ano.
"Não me importa se a medida pode incentivar o abandono das meninas. Em qualquer caso é melhor isso que as matar", disse hoje a ministra da Mulher e do Desenvolvimento Infantil, Renuja Chowdhury, em declarações à agência indiana "PTI".
O feticídio e os assassinatos causam a cada ano o "desaparecimento", denunciado pelo Unicef, de dois milhões e meio de meninas, sobretudo nas áreas mais desenvolvidas e melhor alfabetizadas do país, algo que Chowdhury qualifica como uma "crise nacional".
O fenômeno, unido à má nutrição, fez aumentar a mortalidade infantil feminina nos estados do norte da Índia, um fenômeno que descompensa o equilíbrio demográfico entre homens e mulheres na Índia.
A situação piorou a partir de 2003, quando foram introduzidas em massa as ecografias, que permitem determinar o sexo dos fetos, e as novas técnicas abortivas, que empurraram muitas famílias para a matança de fetos após conhecer seu sexo, segundo explicou a diretora da ONG "Centre for Social Research" (CSR), Ranjana Kumari.
Em certos povoados da região de Madhya Pradesh, no centro do país, uma ultra-sonografia custa 350 rupias (cerca de R$ 6), enquanto o aborto custa R$ 71, segundo o jornal indiano "The Times of Índia".
O jornal acompanha traz a informação com uma fotografia ilustrativa na qual apareciam dois gêmeos de um ano: com um peso de 7,5 quilogramas, o menino recebe o abraço de sua avó enquanto descansa em seu colo, enquanto ela, com apenas 4,7 quilos, é muito menor e apresenta alarmantes sintomas de má nutrição.
Para muitos pais, o infanticídio ou deixar morrer suas filhas é preferível a pagar um dote à família do namorado no momento de pactuar o casamento, um costume que conservado na Índia, um país onde o filho varão perpetua a linhagem, herda a propriedade e cuida de seus pais na velhice, ao contrário da mulher.
Mas os novos dados do censo indiano de 2003-2005 revelam que os estados mais ricos do norte são os que apresentam índices mais altos de mortalidade infantil feminina, uma tendência muito mais encontrada em algumas regiões urbanas.
No estado de Haryana, por exemplo, a taxa de mortalidade infantil feminina passou suspeitosamente de cerca de 65 por mil para 70 por mil, enquanto o dos meninos caiu de 54 para 51 por mil.
Os números se voltam mais escandalosos nas áreas urbanas da região: em 2005 a taxa feminina ficou em 67 por mil, contra 30 por mil dos meninos, segundo o periódico indiano "Hindustan Times".
Kumari reivindica um "forte movimento da sociedade civil para mudar a mentalidade do povo" e assegura que, embora o Governo indiano não tenha feito o suficiente para solucionar o problema, a solução está no fato das "meninas deixarem de ser uma carga para as famílias".
"É um problema social", assevera a diretora do CSR, explicando que a legislação vigente "é muito difícil de cumprir, porque ninguém se queixa e as mortes destas meninas têm o consentimento de seus pais".
Agora, para resistir o drama, as autoridades indianas propuseram abrir centros de amparo de crianças ("Palna") em todos os distritos do país, para que os pais possam deixar suas meninas se não querem criá-las.
"Se os pais abandonam suas filhas, mais tarde podem mudar de opinião, e retornar para levá-las com eles", disse Choudhury. "É um problema internacional e uma vergonha nacional que com um crescimento de 9% este país continue matando suas filhas".
Fonte: Globo.com