Fuga de católicos preocupa novo arcebispo de São Paulo
26.04.2007 - Às vésperas de entrar pela porta principal da Catedral da Sé para missa solene em que tomará posse como novo arcebispo metropolitano de São Paulo, na tarde do próximo domingo, Dom Odilo Scherer afirma que a igreja está se debruçando para compreender o fenômeno da "fuga silenciosa dos católicos", vê avanços sociais durante o governo Lula e diz que a igreja não está interessada na difusão da aids, ainda que seja contrária à utilização de preservativos como forma de combate à doença. Ele defende a fidelidade como a forma mais eficaz de conter o avanço da epidemia. Scherer aguarda com ansiedade a vinda do papa Bento XVI, que chega ao Brasil dia 9 de maio. Ele espera que a visita do papa traga "alegria e conforto para a Igreja e a sociedade brasileira".
Como desafio à frente da maior diocese brasileira, o arcebispo se diz preocupado com o que ele chama de "fuga silenciosa de católicos", em alusão à migração religiosa. "É um fenômeno que atinge não somente a igreja católica. A migração religiosa afeta a todos. Estamos nos debruçando sobre a compreensão desse fenômeno, que nos incomoda", diz.
Ele diz que a globalização das oportunidade se dá também no campo religioso. "A oferta é muita. Vivemos no Brasil o efeito da modernidade. As pessoas se assumem como autônomas e livres do ponto de vista religioso", diz.
Avesso a polêmicas, mas convicto de suas posições, o arcebispo participou na manhã desta quinta-feira de uma sabatina no teatro Folha, promovido pelo jornal Folha de S. Paulo. Aos fins de semana, o mesmo teatro apresenta a comédia "O dia em que raptaram o Papa", de João Bethencourt.
Scherer se diz tranqüilo sobre as contestações que Bento XVI vêm sofrendo e afirma que isso é inerente aos papas. "O único papa que não foi contestado foi João Paulo I. Não deu tempo. Seu pontificado durou apenas 33 dias", disse, provocando risos.
Durante duas horas de conversa, o arcebispo afirmou que a melhor forma de prevenção contra a Aids é a fidelidade ao parceiro e a não promiscuidade. Ele afirma que não é interesse da igreja a difusão da doença e diz que falta instrução e educação adequada à população, o que impede que as campanhas contra a doença sejam mais eficazes.
Scherer utiliza como exemplo a África, onde a penetração da igreja católica é pequena. "Lá a doença se difunde de forma acelerada justamente pela falta de instrução e educação adequada. Não é a postura da igreja que faz com que a doença avance", afirma.
Na política, ele afirma que o governo Lula passou por momentos complexos e paradoxais, mas vê avanços sociais. "Até aqui (Lula) deixou a desejar, mas os problemas não se resolvem com uma canetada. Vejo progressos sociais, como aumento da renda e maior distribuição de renda", diz.
Sobre Fernando Henrique Cardoso, o arcebispo reconhece que em seu governo a economia foi estabilizada e que as privatizações formam feitas em um período em que o estado era reconhecidadamente considerado "pesado".
"O Lula se beneficiou do Estado mais leve, mas seguiu uma linha de continuidade", diz.
Sobre a crise de ética e os escândalos de corrupção que atingiram o Partido dos Trabalhadores (PT) durante o governo Lula, Scherer foi enfático. "É um problema antigo... mas PT tinha uma pauta de ética, mas acabou envolvido. É preciso ética para se governar de fato", disse. "Hoje, as pessoas imaginam que tudo é possível, desde a polícia não pegue."
Apesar de não apoiar as invasões de terra pelos movimentos sociais, o novo arcebispo reconhece que a reforma agrária teve pequenos avanços justamente por causa dessa pressão se mostra eficaz.
Redação Terra