Artigos para Refletir

Sexo e violência agora também se aprende nas salas de aula de São Paulo

24.05.2009 - "Kama Sutra" na escola

Imagine seu filho de nove anos recebendo como lição de casa a recomendação de leitura do livro "Dez na Área, Um na Banheira e Nenhum no Gol". Comprado pela Secretaria de Educação do Governo de São Paulo e distribuído a 1.216 alunos da terceira série do primeiro grau, o livro explora várias posições sexuais e vem recheado de expressões pedagógicas como "chupei ela todinha", "ativo", "passivo" e outros palavrões impublicáveis. Não bastasse o conteúdo sexual, a obra é repleta de erros crassos de português, com uma linguagem digna de baile funk. Para piorar, funciona ainda como manual de ingresso no PCC, o Primeiro Comando da Capital.

É quase uma versão hardcore do "Kama Sutra" - e para crianças.

Tão surreal quanto a explicação do governo paulista, que, em nota, não soube informar como o livro foi parar nas mãos dos alunos.

Nos anos 50, quando o governador José Serra estudava na escola estadual Firmino de Mendonça, no bairro paulistano da Mooca, quem quisesse aprender algo sobre sexo teria de recorrer às revistas proibidas e apimentadas do "novo catecismo" de Carlos Zéfiro.

Os tempos mudaram, a educação se degradou e a cena definitiva dessa decadência ocorreu há pouco mais de uma semana, antes mesmo que o escândalo dos livros erótico-didáticos viesse a público.

Num confronto com a polícia, alunos da mesma escola em que Serra estudou quebraram 47 vidraças, 25 cadeiras e 27 mesas.

Foram contidos pela PM com spray de pimenta. Alguns deles, drogados, trancafiaram-se nos banheiros. Ao comentar o ocorrido, Serra foi lacônico. "No meu tempo não tinha isso, não me lembro de ter acontecido", declarou. Hoje, os alunos bem que poderiam responder dizendo que no tempo do governador o Estado também não distribuía manuais de sexo e violência às criancinhas.

Quando foi prefeito de São Paulo, Serra atribuiu a má colocação das suas escolas no ranking do Enem à chegada constante de novos migrantes, quando o natural seria esperar que a mais próspera metrópole do País se destacasse também pela excelência educacional. Estudando numa escola pública, Serra conseguiu, com méritos próprios, acumular conhecimentos e se tornar uma das figuras mais destacadas do País, apesar da origem humilde. Hoje, não mais no saudoso tempo de criança, mas no tempo ainda mais importante de governador, é improvável que um aluno da sua antiga escola da Mooca possa sonhar com um futuro brilhante.

Colunista da Revista ISTOÉ, edição maio 2009.

Temos 15 Visitantes Online

Segunda Vinda
de Jesus