Foi Deus que me manteve viva quando fui torturada na Coreia do Norte. Relatos dramáticos de mulheres que viveram no país onde os cristãos são presos, torturados e até executados


06.06.2017 -

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Hea Woo demorou a acreditar que seu marido tinha sido morto por ser cristão. Ele não seguia o Cristianismo quando fugiu para a China, nos anos 90. Lá, foi batizado, mas também foi preso pelas autoridades e devolvido para a Coreia. Morreu seis meses depois, na prisão. Foram os ex-companheiros dele que procuraram Hea Woo para contar que seu marido havia dado um testemunho de fé em meio ao sofrimento.

Logo depois, ela seguiu os passos do marido: fugiu para a China, descobriu o Cristianismo e foi batizada. Em março, visitou a Espanha para participar do Encontro Nacional de Portas Abertas, uma entidade que ajuda os cristãos perseguidos, fazendo, por exemplo, chegar Bíblias até eles.

Já Myoung Hee veio de uma família cristã. Ela ainda se lembra do dia em que seu pai chegou pálido em casa. Naquele dia, ele tinha descoberto que seu tio fora executado.

Por medo, muitos fiéis norte-coreanos escondem a fé, inclusive para os próprios filhos.  

Hee não quis saber nada sobre a religião dos pais. Mas, com o tempo, começou a perceber que a vida fora da Coreia era muito diferente e, como cada vez mais gente ao seu redor desaparecia, ela decidiu abandonar o país e cruzar o rio Yalu a nado até a China.

Líder em perseguição

Todos os meses, cerca de 100 pessoas cruzam esta fronteira. Elas fogem do país onde, segundo a ONU, “foram e estão sendo cometidas violações sistemáticas, generalizadas e graves dos direitos humanos”.

“Creio que nenhum outro lugar do mundo alcançou o nível de opressão, controle, lavagem cerebral e isolamento da Coreia do Norte”, afirmou Johannes Klausa, diretor nacional da Ajuda à Igreja que Sofre da Coreia do Sul.

Toda a sociedade é organizada em torno do sistema songbun, que classifica os cidadãos em função de sua lealdade ao regime, e, assim, determina seu acesso à moradia, educação e alimentação. Qualquer suspeita de infidelidade é castigada com a morte, às vezes em execuções públicas, ou com a internação em campos de concentração, onde existem ao menos 100 mil presos.

A Coreia do Norte está entres os países que mais perseguem cristãos. Segundo a ONU, o país pode ter entre 200 e 400 mil cristãos clandestinos, principalmente protestantes. Rezar e ter uma Bíblia são motivos de prisão.

Em 2014, a ONU dizia em um informe que Pyontyang vê nos cristãos “uma ameaça particularmente grave” porque a Igreja é um lugar de interação além do estado, e a fé questiona o culto à dinastia governante, que começou com Kim Il-sung em 1948, prosseguiu com Kim Jong-il (1994-2011), chegou até seu neto, Kim Jong-un, atual líder supremo. Em todo o país, há 30 mil estátuas e retratos gigantes deles, e é obrigatório cultuá-los em todas as casas.

 “Como se não fôssemos humanos”

Na China, a vida dos refugiados não é fácil. No país, vivem cerca de 300 mil norte-coreanos. A China não os reconhece como solicitantes de asilo e os trata como imigrantes ilegais. A qualquer momento, eles correm o risco de ser presos por policiais chineses ou por agentes da Coreia do Norte, que fazem fiscalização na região noroeste – fronteira com a Coreia. Os refugiados presos são devolvidos ao país e lá executados sumariamente se confessarem ter mantido contato com cristãos. Os que não são mortos são mantidos em condições precárias.

Foi o que aconteceu com o marido de Hea Woo e, anos depois, com ela mesma. Ela foi presa na China e deportada para a Coreia. Passou 10 meses na prisão, onde foi torturada.

 “Comecei a duvidar de Deus. Então, ouvi uma forte voz, dizendo: ‘Minha querida filha, você está caminhando sobre a água!’. Foi ele que manteve viva”. As más condições do cárcere deixaram Hea tão doente, que a vida dela estava em perigo.

Da prisão, ela foi enviada para um campo de trabalho, onde permaneceu por vários anos. Lá, cada dia era uma tortura: trabalhos pesados, reeducação ideológica e poucas colheres de arroz por dia como alimentação.

A deportação não é a única ameaça para os refugiados. Como muitos outros compatriotas, Myoung Hee caiu nas mãos de uma máfia. “Fui vendida como esposa a um agricultor chinês. Ele não era tão mal como a maioria. Tive um filho com ele”.

Ela teve sorte, pois seu destino poderia ter sido o tráfico de órgãos ou uma rede de prostituição.

Um dia, Myoung descobriu que sua sogra era cristã evangélica. Então, começou a ir com ela às reuniões clandestinas; converteu-se e decidiu voltar à Coreia para compartilhar a notícia de sua conversão com a família. Mas foi detida ao cruzar a fronteira. Seu destino foi um campo de reeducação. “Eles nos tratávamos como se não fôssemos humanos”, relatou à instituição Portas Abertas. A mulher continuou: “Desisti da vida. Mas algo agitava meu coração. Era Deus. Ele estava comigo e não queria que eu jogasse a toalha”.

Ela escapou quando foi transferida para uma prisão com menos segurança. Depois de visitar a família, voltou para a China, afim de se encontrar com o marido. Depois, toda a sua família conseguiu se mudar para a Coreia do Sul.

Hea Woo também vive atualmente nesse país, que oferece asilo a cerca de 25 mil refugiados.

Por María Martínez López

Fonte: Alfa y Omega  via  Aleteia

 

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