Não sois inocentes diante das vossas omissões: Quando começamos a destroçar a fé, a negociá-la, a vendê-la à melhor oferta, começamos o caminho da apostasia, da não fidelidade ao Senhor


14.07.2017 -

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“Calar, jamais! Gritai em cem mil línguas! Vejo que, por ter alguém calado, o mundo se arruinou e a Santa Igreja encontra-se pálida, sem cor, sem sangue nas veias”. (Santa Catarina de Sena).

Disse São Pedro Canísio, no livro “Confissões”, página 118: “Por fim, acrescentarei algo sobre o encargo de ensinar, sobremaneira familiar aos homens de hoje. Agora, talvez mais do que nunca, a maior das necessidades é a de termos doutores que proclamem a verdadeira fé católica com grande zelo e invencível constância, que inculquem a sã doutrina num povo desejoso de novidades nocivas.Vivemos em um tempo, em que, no dizer do apóstolo: “Os homens não aceitam mais a sã doutrina, mas, excitados, preferem não a salvação, mas o agrado, seguem seitas de perdição, defendem a licenciosidade da carne em vez da liberdade evangélica”, finalizou o santo. A fé não se negocia. Esta tentação sempre existiu na história do povo de Deus: cortar um pedaço da fé, ainda que não seja muito. Mas a fé é assim, tal como a recitamos no Credo. É necessário superar a tentação de fazer o que todos fazem, não ser tão, tão rígidos, porque precisamente daí começa um caminho que acaba na apostasia.

De fato, quando começamos a destroçar a fé, a negociá-la, a vendê-la à melhor oferta, começamos o caminho da apostasia, da não fidelidade ao Senhor. O heroísmo é uma categoria social antiga. Considera-se herói, segundo a definição de Paul Johnson, aquele cuja vontade se sobrepõe à opinião pública, agindo com coragem e decisão, mesmo nas situações mais adversas; independentemente das consequências. 

A fé dos cristãos é colocada à prova: o perigo do respeito humano e do pensamento politicamente correto. Uma lição antiga, diz que “a fraqueza se contrapõe mais à virtude do que ao vício”. Era com esta frase que o Papa Pio XI  respondia àqueles que o achavam muito severo, “de pulso muito firme”. Em nosso tempo, em que a pusilanimidade parece ser a regra e prevalecer, mesmo em matérias de importância vital para a vida do homem e da Igreja, é conduta comum, nunca foi tão necessário falar da virtude da fortaleza. Ao contrário do que se poderia pensar, corajoso e forte não é quem não tem medo. O medo faz parte da natureza humana, e dirigido às coisas certas, pode ser bastante vantajoso, inclusive para a vida espiritual. O temor do Senhor, que o autor sagrado diz ser “o princípio da sabedoria” (pr 9, 10), é consequência direta do verdadeiro amor que devemos a Deus: se verdadeiramente o amamos, também tememos perder a sua amizade, a sua presença em nossa alma.

Já que, como lembra Santo Afonso Maria de Ligório, doutor da Igreja: “a vida presente é uma guerra contínua com o inferno, na qual corremos, a cada instante, o perigo de perder a Deus”. Ele nos concede a virtude da fortaleza, que ordena os nossos medos e nos ajuda a dizer “não” ao mal e ao pecado. O que faz o politicamente correto, por outro lado? Dirige o medo que deveria ter de ofender Jesus aos afetos humanos, teme antes a inimizade dos homens que a de Deus, transforma o “temor do Senhor” em “temor do mundo”. Esta ética frívola condenada por tantos de nossos contemporâneos é análoga àquela atitude que os cristãos chamam de respeito humano. O medo maior desta pessoa é perder o prestígio da opinião pública, dos seus fãs; ela é torturada a todo instante imaginando o que as pessoas vão pensar dela. Na hora do martírio, de entregar sua vida, ela desiste covardemente. Somente a pessoa que fica irada sem razão, peca. Quem quer que fique irado por uma razão justa não é culpado. Porque, se faltasse a ira, a ciência de Deus não teria andamento, os julgamentos não seriam acertados, e os crimes não seriam reprimidos. Diz São João Crisóstomo: “ademais, a pessoa que não fica irada quando deveria estar, peca. Pois uma paciência excessiva é o viveiro de muitos vícios: ela fomenta a negligência, e estimula não apenas o perverso, mas acima de todo o bem, a fazer o errado.”

Papa Pio XII, disse em discurso ao povo de Roma, de 20 de fevereiro de 1949, acta apostolicæ sedis, n.º 41, 1949, p. 74): “…uma Igreja que se calasse quando ela tem o dever de falar; uma Igreja que edulcorasse a lei de Deus, adaptando-a ao gosto das vontades humanas, quando ela é obrigada a altissonantemente proclamá-la e defendê-la; uma Igreja que se destacasse do fundamento inabalável sobre o qual a edificou Cristo, para instalar-se comodamente sobre a areia movediça das opiniões do dia ou para abandonar-se à corrente que passa…diletos filhos e filhas! Herdeiros espirituais de uma legião incontável de confessores e de mártires! Seria essa a Igreja que venerais e amais? Vós reconheceríeis numa tal Igreja os traços do rosto de Vossa Mãe? Poderíeis imaginar um sucessor do primeiro Pedro que se dobrasse a semelhantes exigências? ”.

A soma de virtudes e espírito de martírio e sacrifício, deu origem a uma grande quantidade de mulheres e homens santos, cujo principal combate era a conquista do céu.  A Igreja não se pode eximir do dever de proclamar Cristo e o seu evangelho como verdade salvífica, fonte da nossa felicidade última como indivíduos, e como fundamento de uma sociedade justa e humana. Mesmo que nos persigam, não podemos nos calar. Mesmo que nos ridicularizem, não podemos deixar de pregar com parresía, com franqueza e coragem. Em um mundo onde tantos advogam, ainda que de modo subliminar, uma cultura politicamente correta, baseada em categorias humanas, somos chamados a outra retidão: àquela que tem sua base nas palavras de Cristo e no Magistério da sua Igreja. As ocasiões para testemunhar a fé são muitas e Deus sempre nos auxilia com sua graça, para tomarmos a decisão correta. É verdade o que disse Orígenes: “o cristão, depois de uma tentação, ou sai idólatra ou sai mártir”.

Com a severidade própria dos santos, São João Maria Vianney combateu até à morte os insultos a Deus. A santidade de João Maria Vianney causava constrangimentos. Apegado desde cedo à oração, agia em tudo conforme à vontade divina, fazendo de sua vida um perpétuo louvor a Deus. Tinha um fervor imensurável. Passava horas à frente do sacrário, gastando-se em severas penitências e na meditação dos santos mistérios. Dizia o santo: “o meu terço vale mais que mil sermões”. Por isso, não poupou esforços no combate às blasfêmias e à libertinagem. Era o zelo pela casa do pai que o consumia. Sem fazer concessões, apressou-se em instruir os mais novos na catequese e nas práticas piedosas. Começava uma guerra sem tréguas, e o santo não iria recuar enquanto não visse a sua paróquia, de joelhos, diante do Senhor.  A santa intransigência de Vianney tinha um motivo igualmente santo: ele amava a seus paroquianos com amor de predileção. Por isso faria tudo que estivesse a seu alcance para lhes assegurar a salvação eterna. E seus esforços foram recompensados. Após poucos anos de ministério, Ars não era mais Ars. O povo havia se convertido, já não se trabalhava mais aos domingos e a igreja permanecia sempre cheia. Vencera a santidade do pobre cura d’Ars. Os paroquianos compreenderam o que há tanto lhes ensinava o são cura d’Ars: “tão grande é o amor de Deus, é um fogo que queima na alma sem, contudo, a consumir. Ter Jesus no coração é já possuir o céu”.

Mas ainda há espaço no mundo de hoje para o heroísmo cristão? Aparentemente, não! A sociedade moderna carece de autênticas figuras heroicas, porque a virtude saiu de moda. O heroísmo foi substituído pelo mau caratismo, pela parvoíce de alguns celerados, que acham que fazem muito gritando algumas frases de efeito em frente a uma repartição pública ou coisa do gênero. O rosto estampado de um assassino como Che Guevara na camisa de um adolescente demonstra o vazio – tanto moral, quanto intelectual – desta civilização. Mais do que nunca, o mundo precisa de vidas limpas, de almas claras, de inteligências simples, que estejam dispostas a renunciar às ideologias, apoiando-se firmemente na providência divina, para empenhar mutuamente as suas vidas, suas fortunas e a sagrada honra pela santidade cristã. O Reino de Deus é dos violentos, por isso, o cristão pode viver com a segurança de que, se tiver desejos de lutar, Deus o pegará pela mão direita.  É na cruz que nascem os mártires, é no céu que habitam os santos!

 Fonte: Equipe Padre Rodrigo Maria - www.padrerodrigomaria.com.br

 

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