Padre Divino Antônio Lopes: Eis que o semeador saiu a semear. A semente é a Palavra de Deus e os terrenos são os corações


11.09.2017 -

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Marcos 4, 3: “Eis que o semeador saiu a semear”.

I. O semeador saiu a semear... a semear a melhor semente... preciosa semente... de primeira qualidade. Essa semente “é a Palavra de Deus” (Lc 8, 11).

Abramos, ou melhor, escancaremos o coração para receber frutuosamente a semente da Palavra de Deus: “Onde a palavra de Deus produz fruto consolador é justamente no coração que, confiando nela, arrisca tudo por tudo. Aí sucedem dois admiráveis efeitos: os pecados desaparecem e as virtudes florescem” (Pe. João Colombo).

Apoiemo-nos nessa semente... ela é sustentáculo para todos; infeliz de quem a despreza: “Sustentáculo poderoso para não se cometer pecado é a leitura das Escrituras... Grande precipício e profundo abismo é desconhecer as Escrituras” (Santo Epifânio).

Não deixemos essa semente se perder, porque o prejuízo será grande para nós:“Tornai-vos praticantes da Palavra e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos!” (Tg 1, 22).

A semente é a Palavra de Deus e os terrenos são os corações.

A Palavra de Deus é uma semente preciosa: “Ela criou o mundo, deu a vista aos cegos, a saúde aos doentes, ressuscitou os mortos e converteu os pecadores. Se esta semente não produz fruto, a culpa é do terreno, isto é, do coração que a recebe” (Pe. João Colombo).

II. Quem é o semeador?

O Pe. Gabriel de Santa Maria Madalena escreve: “O semeador é justamente Jesus... a semente que semeia é a Palavra de Deus, que Ele – Palavra incriada – possui em si mesmo e transmite aos homens em linguagem humana. É, pois, sua palavra de eficácia, de poder divino, semente fecundíssima, capaz de germinar em salvação, em santidade e em vida eterna... em toda parte Jesus semeia a Palavra”.

São João Crisóstomo também escreve: “Eis que saiu o semeador a semear’. De onde saístes ou como saístes Senhor, que estais em toda parte e tudo encheis de vossa presença? Quando a nós viestes pela encarnação, não foi certamente passando de um lugar a outro, e sim, assumindo a natureza humana e pondo-vos em relação, contato conosco. Já que não podíamos penetrar lá onde habita Deus, visto serem nossos pecados qual muralha que nos impedia a estrada, viestes a nós! Para que viestes? Para cultivar a terra, purificá-la e semear nela a Palavra da virtude e do amor... Ó Jesus, a todos generosamente ofereceis vossa palavra, vossa doutrina. Como não faz o semeador distinção na terra que lavra, mas semeia simplesmente em toda parte, assim também vós, na pregação, não distinguis o rico do pobre, o douto do ignorante, o fervoroso do preguiçoso, o corajoso do covarde, mas a todos indistintamente falais”.

Não viremos as costas nem tratemos com indiferença o semeador; pelo contrário, recebamos com atenção, devoção e respeito a semente semeada por Ele... Ouçamos e lembremos continuamente de seus ensinamentos... coloquemo-los em prática com coragem e fé, enfrentando os ventos contrários... não coloquemos nenhum obstáculo, mas deixemos que ela enraíze no nosso coração.

III. O semeador espalha a sua semente aos quatro ventos: “E ao semear, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as aves e a comeram” (Mc 4, 4).

Em Mc 4, 15 diz: “Os que estão à beira do caminho onde a Palavra foi semeada são aqueles que ouvem, mas logo vem Satanás e arrebata a Palavra que neles foi semeada”.

Esse coração, figurado pelo caminho, é o daqueles que oferecem à Palavra de Deus um coração calcado e duro, onde o Evangelho não consegue penetrar. Vem Satanás, como uma ave agoureira e come a semente ficada inerte à flor do solo.

Esses católicos são os que escutam a pregação com um ouvido e a deixam sair pelo outro. Nada retém. Um doente que não retém o alimento nunca poderá se curar; o mesmo acontece com o católico que não retém os bons ensinamentos... esse nunca será fiel a Deus.

Na Sagrada Escritura conta-se que Nabucodonosor, rei da Babilônia, tinha tido um sonho que o pôs na mais alta consternação e na mais inesperada surpresa. Esse sonho revelava-lhe o futuro do seu reino. Mas, apenas acordado, a visão desvaneceu-lhe da memória, e ele não pode lembrar-se de nada (Dn 2, 3).

E a Palavra de Deus, tal como é escutada por certos ouvintes, é semelhante a esse sonho. Eles ouviram grandes verdades; foi-lhes posta diante dos olhos a visão do seu futuro eterno; mas, apenas saídos da igreja, não pensam mais nela e não se lembram mais de nada.

Jesus querido, arranque do “terreno” do nosso coração toda dissipação, vazio, distração... esmoreça esse “terreno” duro, calcado e sedento somente do externo.

Peçamos força ao Senhor para não sermos nunca como esses que “se assemelham ao caminho onde caiu a semente: negligentes, tíbios e desdenhosos” (São João Crisóstomo).

IV. O semeador espalha a sua semente aos quatro ventos: “Outra parte caiu em solo pedregoso e, não havendo terra bastante, nasceu logo, porque não havia terra profunda, mas, ao surgir o sol, queimou-se e, por não ter raiz, secou” (Mc 4, 5-6).

Em Mc 4, 16-17 diz: “Assim também as que foram semeadas em solo pedregoso: são aqueles que, ao ouvirem a Palavra, imediatamente a recebem com alegria, mas não têm raízes em si mesmos, são homens de momento: caso venha uma tribulação ou uma perseguição por causa da Palavra, imediatamente sucumbem”.

Esse coração, figurado pelo solo pedregoso, é coberto por uma fraca camada de terra, onde a semente pode germinar, mas não lançar raízes, de modo que ao despontar o sol ficam secas.

Esse é o ouvinte que se deixa convencer pela Palavra de Deus e promete praticá-la; praticam-na com entusiasmo enquanto não é necessário nenhum esforço. Mas, à primeira dificuldade (tribulação, perseguição...), ao primeiro sacrifício, na primeira ocasião, ao primeiro respeito humano, abandonam a Palavra de Deus e vai para as suas comodidades ou para os seus prazeres.

Jesus amado, dai-nos forças para não agirmos assim; pelo contrário, que lutemos corajosamente e rememos com valentia contra a maré. Tu disseste: “O Reino dos Céus sofre violência, e violentos se apoderam dele” (Mt 11, 12), e: “Assim, todo aquele que ouve essas minhas palavras e as põe em prática será comparado a um homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, mas ela não caiu, porque estava alicerçada na rocha” (Mt 7, 24-25).

O Pe. Francisco Fernández Carvajal comenta: “Este terreno pedregoso representa as almas superficiais, com pouca profundidade interior, inconstantes, incapazes de perseverar. Têm boas disposições e até recebem a graça com alegria, mas, quando chega o momento de enfrentar as dificuldades, retrocedem; não são capazes de empenhar-se sacrificadamente em cumprir os propósitos que um dia fizeram, e morrem sem dar fruto”.

Muitos, depois de vencerem os primeiros inimigos da vida interior, “abandonam o esforço e falta-lhes ânimo... deixam de lutar quando estão a dois passos da fonte de água viva que é capaz de saciar para sempre, como disse o Senhor à samaritana” (Santa Teresa de Jesus), e: “A alma que ama a Deus de verdade não deixa por preguiça de fazer o que pode para encontrar o Filho de Deus, o seu Amado. E depois de ter feito tudo o que pode, não fica satisfeita e pensa que não fez nada” (São João da Cruz).

V. O semeador espalha a sua semente aos quatro ventos: “Outra parte caiu entre os espinhos; os espinhos cresceram e a sufocaram, e não deu fruto” (Mc 4, 7).

Em Mc 4, 18-19 diz: “E outras são as que foram semeadas entre os espinhos: estes são os que ouviram a Palavra, mas os cuidados do mundo, a sedução da riqueza e as ambições de outras coisas os penetram, sufocam a Palavra e a tornam infrutífera”.

Esse coração, figurado pelo terreno invadido pelos espinhos, é o daqueles que, ouvindo as pregações, quereriam converter-se, mas são absorvidos pelos negócios, tem a alma invadida ou pela sedução da riqueza ou pela corrupção da luxúria.

Quando São Paulo Apóstolo era prisioneiro em Cesaréia, foi pelo procurador romano apresentado ao rei Agripa e à sua real irmã Berenice. A grande sala das audiências estava cheia de ilustres personalidades civis e militares. O Apóstolo começou a falar com tanto ardor do Filho de Deus morto por nós e ressurgido... da justiça e da pureza que Ele exige para nos conduzir à salvação no reino dos céus, que o rei, comovido, exclamou: “Paulo, tu quase me persuades a me fazer cristão” (At 26, 28). Com o coração cheio de esperança, São Paulo respondeu: “A Deus provera que não somente tu, mas todos os que hoje me escutam, vos fizésseis cristãos como sou!” (At 26, 29).

Mas nenhum deles se converteu. Todos tinham o coração sufocado pelas solicitudes mundanas, a começar pelo rei Agripa, que tinha no coração inomináveis paixões. Por isso, a semente da Palavra de Deus não germinava neles, mas era sufocada antes de dar frutos: “O amor às riquezas, a ânsia desordenada de influência ou de poder, uma excessiva preocupação pelo bem-estar e pelo conforto, são duros espinhos que impedem a união com Deus” (Pe. Francisco Fernández Carvajal).

Jesus bondoso, que o “terreno” do nosso coração esteja desapegado de tudo e de todos para receber frutuosamente a semente... que não deixemos a mesma ser sufocada dando-nos grande prejuízo na vida espiritual: “Qualquer apego voluntário, ainda que mínimo, é laço que detém o homem no vôo para Deus e lhe impede a perfeita união com ele” (Pe. Gabriel de Santa Maria Madalena).

VI. O semeador espalha a sua semente aos quatro ventos: “Outras caíram em terra boa e produziram fruto, subindo e se desenvolvendo, e uma produziu trinta, outra sessenta e outra cem” (Mc 4, 8).

Em Mc 4, 20 diz: “Mas há as que foram semeadas em terra boa: estes escutam a Palavra, acolhem-na e dão fruto, um trinta, outro sessenta,  outro cem”.

Esse coração, figurado pelo terreno bom, é aquele que escuta a Palavra de Deus, que a guarda no coração e a faz frutificar.

Em Listres achava-se um homem impotente das pernas, o qual nunca soubera caminhar. Mas estava a ouvir com tanta fé e atenção os argumentos de São Paulo, que o Apóstolo, olhando-o nos olhos, lhe disse: “Levanta-te direito sobre os pés” (At 14, 10). E ele se levantou e caminhou.

Se com esse ardor de fé e de boa vontade ouvíssemos sempre a Palavra de Deus, também nós nos levantaríamos dos nossos defeitos e dos hábitos pecaminosos e caminharíamos direito pela trilha do Senhor.

O Pe. João Colombo escreve: “O Evangelho escuta-se de pé. Assim o quer a liturgia; mas deveis compreender bem o significado de tal disposição. O Evangelho escuta-se de pé para mostrarmos, com a atitude da nossa pessoa o respeito e a fé na Palavra de Deus. O Evangelho escuta-se de pé para nos mostrarmos na atitude de quem, escutando ordens, está pronto a correr para executá-las”.

Jesus amigo, que o nosso coração seja uma terra boa para que a semente produza o máximo de frutos.

Se a semente é boa, o “terreno” do nosso coração também deve ser bom; se a semente não produzir nele o que deveria produzir, a culpa não é da semente nem do semeador, mas sim, nossa... somente nossa: “A terra  é boa, o semeador o mesmo e as sementes as mesmas; e no entanto, como é que uma deu cem, outra sessenta e outra trinta? Aqui a diferença depende também daquele que recebe, porque, mesmo onde a terra é boa, há muita diferença entre uma parcela e outra. Pois ver que a culpa não é do lavrador, nem da semente, mas da terra que a recebe; e não é por causa da natureza, mas da disposição da vontade” (Santo Agostinho).

Longe do nosso coração o caminho, pedregulho, espinho... mas somente terra boa: “A única coisa que nos importa é não sermos caminho, nem pedregulho, nem espinhos, mas terra boa... O coração não seja caminho onde o inimigo arrebate, como o pássaro, a semente calcada pelos transeuntes; nem pedregoso onde a pouca terra faça germinar imediatamente aquilo que o sol queimará; nem carrascal de paixões humanas e cuidados da vida” (São João Crisóstomo).

Padre Divino Antônio Lopes FP - Eis que o semeador saiu a semear.

Anápolis, 03 de julho de 2011

 

Bibliografia

Sagrada Escritura

Pe. Gabriel de Santa Maria Madalena, Intimidade Divina

São João Crisóstomo, Comentário ao Evangelho de São Mateus

Santo Epifânio, Escritos

Pe. João Colombo, Pensamentos sobre os Evangelhos e sobre as festas do Senhor e dos Santos

Pe. Francisco Fernández Carvajal, Falar com Deus

Santa Teresa de Jesus, Caminho de perfeição

São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo

Santo Agostinho, Sermão 101, 3

Fonte: www.filhosdapaixao.org.br

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Nota de www.rainhamaria.com.br

Diz na Sagrada Escritura:

"Ouvi, filhos meus, a instrução de um pai; sede atentos, para adquirir a inteligência, porque é sã a doutrina que eu vos dou; não abandoneis o meu ensino. Que teu coração retenha minhas palavras; guarda meus preceitos e viverás. Adquire sabedoria, adquire inteligência, não te esqueças de nada, não te desvies de meus conselhos. Não abandones a sabedoria, ela te guardará; ama-a, ela te protegerá. Eis o princípio da sabedoria: adquire a sabedoria. Adquire a inteligência em troca de tudo o que possuis. Ouve, meu filho, recebe minhas palavras e se multiplicarão os anos de tua vida. É o caminho da sabedoria que te mostro, é pela senda da retidão que eu te guiarei. Se nela caminhares, teus passos não serão dificultosos; se correres, não tropeçarás. Apaga-te à instrução, não a soltes, guarda-a, porque ela é tua vida. Na estrada dos ímpios não te embrenhes, não sigas pelo caminho dos maus. Evita-o, não passes por ele, desvia-te e toma outro, porque eles não dormiriam sem antes haverem praticado o mal, não conciliariam o sono se não tivessem feito cair alguém, tanto mais que a maldade é o pão que comem e a violência, o vinho que bebem. Mas a vereda dos justos é como a aurora, cujo brilho cresce até o dia pleno. A estrada dos iníquos é tenebrosa, não percebem aquilo em que hão de tropeçar. Meu filho, ouve as minhas palavras, inclina teu ouvido aos meus discursos. Que eles não se afastem dos teus olhos, conserva-os no íntimo do teu coração, pois são vida para aqueles que os encontram, saúde para todo corpo. Guarda teu coração acima de todas as outras coisas, porque dele brotam todas as fontes da vida. Preserva tua boca da malignidade, longe de teus lábios a falsidade! Que teus olhos vejam de frente e que tua vista perceba o que há diante de ti! Examina o caminho onde colocas os pés e que sejam sempre retos! Não te desvies nem para a direita nem para a esquerda, e retira teu pé do mal". (Provérbios 4)

 

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