Casamento entre humanos e robôs? Os avanços na computação e na robótica tornarão possível


02.04.2008 - Uma entrevista com David Levy
O amor e o casamento com robôs seria uma instituição menos importante? Não para o pioneiro da computação David Levy. Os avanços contínuos na computação e na robótica, segundo ele, tornarão possível o casamento legal entre Homo e Robo até metade deste século.

No ano passado, David Levy publicou o livro Love and Sex with Robots, após anos de pesquisa sobre interações entre humanos e computadores. Sua idéia básica é que, para humanos que não conseguem estabelecer conexões emocionais e sexuais com outras pessoas, talvez haja a possibilidade de estabelecer essa ligação com robôs. O tópico deixa margem ao rídiculo: no programa de entrevistas americano The Colbert Report, o apresentador Stephen Colbert perguntou a Levy, "E quanto a essas pessoas que não conseguem estabelecer relações com outros seres humanos... por acaso são as mesmas pessoas que escrevem sobre amor e sexo com robôs?” Brincadeiras à parte, Levy, com 62 anos de idade, foi bem sério ao explicar suas idéias a Charles Q. Choi, nosso colaborador, no artigo “Hoje não, querida, preciso reiniciar”, publicado na seção Perfil da edição de abril de Scientific American Brasil.

A seguir, a entrevista completa.

- Como você passou a se interessar pela inteligência artificial (IA)?
Tudo aconteceu quase que por acidente. Aprendi a jogar xadrez aos oito anos de idade – foi minha grande paixão no colegial e na universidade. No meu último ano de universidade, conheci um negócio chamado computador. Havia ouvido falar dele, mas não sabia nada a respeito. Na época, eram incrivelmente primitivos – não usavam transistores, mas válvulas. Passei a me interessar pela programação de computadores depois de programar jogos. Em seguida, fiquei sabendo de algo chamado IA e que algumas pessoas em Edimburgo estavam trabalhando com isso, como Donald Michie, chefe do departamento de inteligência artificial da University of Edinburgh, que trabalhou com Alan Turing decifrando códigos alemães. Donald Michie foi um cara incrível que morreu recentemente em um acidente de carro. Foi o pai fundador da IA no Reino Unido e quem apresentou o tema para mim e para outras pessoas.

- Então seu interesse por programas de xadrez o levou para os computadores e, finalmente, para a inteligência artificial?
Na época, as pessoas faziam programas de xadrez para simular os processos do pensamento humano. Acontece que essa abordagem não funcionava, pois os programas de xadrez usavam técnicas completamente diferentes, que nada tinham de parecido com os processos humanos. Mas eu ainda estava interessado em simular o raciocínio, as emoções e a personalidade dos humanos. Pensei, “Não seria interessante se houvesse pessoas artificiais com quem pudéssemos conversar?” Isso me fez pensar ainda mais sobre as maneiras como os humanos interagem com computadores – não só digitando em um teclado, mas também de forma mais humana. Financiei um projeto por três anos que venceu o Prêmio Loebner em 1997, um campeonato mundial para programas de computador de conversa que é decidido por uma conversação parecida com o teste de Turing.

- Em outras palavras, as respostas do programa tentaram ser o mais parecidas possíveis com as respostas de um humano e, de acordo com o conceito de Turing, a máquina poderia “pensar”. Sendo assim, você começou a pesquisar até que ponto a interação entre humanos e robôs poderia ir?
Por volta de 2003, comecei a pesquisar esse tópico com muita seriedade. Estava escrevendo um livro, Robots Unlimited, com alguns capítulos sobre a emoção dos robôs – amor, até sexo. Encontrei tanto material que, quando terminei o livro, quis pesquisar mais a fundo as relações emocionais humanas com computadores, com a possibilidade de relações sexuais. Decidi intitular o livro Love and Sex with Robots.

- Qual aspecto da pesquisa você achou especialmente memorável?
A única coisa que me fez estudar esse assunto mais profundamente foi quando li o livro de Sherry Turkle, The Second Self. Nele, Sherry escreveu sobre alguns estudantes que entrevistou na tentativa de entender como as pessoas se relacionam com os computadores. Em um caso curioso sobre um estudante apelidado de “Anthony”, ela relata que o jovem tentou ter namoradas, mas preferia as relações com computadores. Com garotas, não sabia muito bem como reagir; mas com os computadores, ele sabia. Achei isso tão fascinante. Há vários Anthonys por aí que acham difícil ou que não conseguem estabelecer relações satisfatórias com humanos. Dediquei meu livro Love and Sex with Robots a Anthony e a todos os outros Anthonys do passado e do futuro, de ambos os sexos – a todos aqueles que se sentem perdidos e sem esperança nas relações, para que saibam que um dia terão a possibilidade de se relacionar com robôs.

- Como foi pesquisar a possibilidade de sexo com robôs? Você acabou escrevendo muito sobre sexo com bonecas infláveis – você conhecia as bonecas infláveis antes de escrever seu livro?
Não tinha pensando nelas logo de início. Foi absolutamente fascinante fazer a pesquisa. Então, tive a idéia de que o sexo com bonecas era como sexo com prostitutas – você sabe que a prostituta não o ama e nem se importa com você, e só está interessada no tamanho de sua carteira. Sendo assim, acho que os robôs podem simular amor; mas mesmo que não possam, e daí? As pessoas pagam milhões às prostitutas por seus serviços regulares. Achei que a prostituição era uma analogia muito boa.

- Como você mencionou em Love and Sex with Robots, bordéis no Japão e na Coréia do Sul já oferecem sexo com bonecas pelo mesmo preço que cobrariam por prostitutas humanas. Sendo assim, estudando o sexo com prostitutas, você concluiu que poderia começar a entender qual seria o pensamento por trás do sexo com robôs...
Comecei analisando a psicologia dos clientes das prostitutas. Uma das explicações mais comuns que encontrei para pessoas que pagam por sexo foi que desejavam variedade de parceiros sexuais. Com os robôs, você poderia ter uma loira hoje, uma morena ou uma ruiva. As pessoas também desejam experiências sexuais diferentes. Ou não querem se comprometer com um relacionamento; apenas ter uma relação sexual quando der vontade. Todas essas razões apresentadas para explicar por que procuram sexo com prostitutas também poderiam se aplicar ao sexo com robôs.

- Mas o sexo com robôs não seria algo só para homens?
Quando comecei, a pesquisa tratava quase inteiramente de clientes masculinos, mas o número de mulheres que pagam por sexo está aumentando, embora não haja muita coisa publicada sobre o assunto. Isso mostra que ambos os sexos estão interessados em pagar por sexo e dispostos a fazê-lo. Heidi Fleiss está propondo abrir um bordel em Nevada onde todos os funcionários do sexo serão homens e as clientes, mulheres. Já existe algo parecido na Espanha.

- Se as pessoas se apaixonarem por robôs, não estarão se apaixonando apenas por um algoritmo?
A questão não é que as pessoas se apaixonarão por um algoritmo, mas por uma simulação convincente de um ser humano, e simulações convincentes podem ter um efeito notável sobre as pessoas. Quando tinha 10 anos, visitei o museu de cera da Madame Tussauds em Londres, com minha tia. Queria encontrar alguém para me levar a uma parte da mostra e, quando encontrei, não me dei conta por alguns segundos que a pessoa era de cera. Isso teve um grande impacto sobre mim – nem tudo é como parece ser e as simulações podem ser bem convincentes. E isso porque era só uma estátua de cera.

- Se você e muitos outros conseguem se enganar com uma figura de cera, mesmo por um instante, imagine como poderia ser realista a simulação robótica de uma pessoa. Mas se as pessoas estão cientes de que um robô é apenas um monte de circuitos eletrônicos, isso não seria um obstáculo para o amor verdadeiro?
Em 40 ou 50 anos, todos com idade para se casar terão crescido convivendo com aparelhos eletrônicos ao seu redor, e não os enxergarão como anormais. As pessoas que crescem com todos os tipos de engenhocas eletrônicas acharão bem normal ter andróides como amigos, parceiros, amantes.

- A ficção científica inspirou você de alguma forma? Pois a ficção científica é naturalmente a primeira coisa que penso quando imagino uma sociedade de humanos integrados com robôs.
Eu nunca leio ficção científica. O único livro de ficção científica que já li foi como um favor para um editor que queria uma citação minha para a contracapa, mas o livro era tão ruim que não consegui suportar.

- Os avanços na robótica realmente acontecerão assim tão rápido? A tecnologia não ocuparia o lugar da eletrônica?
A tecnologia dos computadores está cada vez mais rápida e poderosa, além de menor em tamanho, e a evolução não pára. O que cabe em uma mochila hoje poderia caber em uma caixa de fósforos daqui a 30 anos.

- Se hoje ainda não entendemos por completo os humanos, como podemos construir um robô humanóide?
Certamente será um processo interativo. Mas embora não entendamos completamente os humanos, atualmente já sabemos um pouco sobre o comportamento humano e a psicologia, e poderíamos programar essas informações.

- A sua previsão para humanos se casando com robôs em 50 anos não é otimista demais?
Se voltássemos 100 anos no tempo e propuséssemos a idéia de homens se cansando com homens, seríamos trancafiados em um hospício. Foi só na segunda metade do século 20 que o governo federal norte-americano revogou a lei em cerca de 12 estados que dizia que o casamento entre raças era ilegal. Isso serve para perceber como a natureza do casamento mudou. Acredito que a natureza do casamento no futuro será aquela que queremos que seja. Se você e seu parceiro decidirem se casar, vocês decidirão quais são os limites, qual a finalidade desse ato para vocês.

- Você acha que as pessoas realmente vão querer um robô que concorde com tudo ou que seja completamente previsível?
Acredito realmente que um pouco de atrito seja necessário nas relações. Ninguém ia querer de fato um robô que faça tudo que você quer. A maioria das pessoas pode desejar robôs que digam ocasionalmente “Não quero fazer isso” e que rejeitem certos pedidos de tempos em tempos. Então isso poderia ser programado, isto é, o nível de desacordo que desejado.
E você poderia programar um robô para que tenha gostos diferentes dos seus. Pessoalmente, acho muito benéfico que minha esposa tenha interesses que eu não tenho. Poderia ser fascinante, por exemplo, que seu robô soubesse muito sobre selos do século 19 da África do Sul ou algo do gênero.

- Como as relações entre humanos e robôs poderiam alterar a sociedade humana?
Não acho que o advento das relações emocionais e sexuais com robôs acabaria com as relações entre humanos ou as prejudicaria. As pessoas amarão outras pessoas e farão sexo com elas. Mas acredito que há pessoas que sentem um vazio em sua vida emocional e sexual por uma série de razões e que poderiam se beneficiar com os robôs. Outros podem tentar se envolver com um robô só por curiosidade, ou se sentir fascinados pelas notícias que aparecem na mídia. E sempre haverá aqueles que querem apenas imitar os vizinhos. Um amigo meu chegou a comentar que haverá pessoas que dirão, “Ah, você é apenas um robô”. Mas também acho que haverá pessoas que partirão da seguinte opinião: “Ah, você é apenas um humano".

- Apaixonar-se por um robô não seria algo semelhante a se apaixonar em uma sala de bate-papo?
Acredito que a diferença é muito pequena ao final das contas – se estiver sentado em casa conversando em uma sala de bate-papo com alguém que alega ser uma mulher de 26 anos de idade – entre o fato de essa pessoa ser um humano ou um robô. É um tipo de teste de Turing. Muitas pessoas hoje em dia estão desenvolvendo fortes ligações emocionais pela Internet, e até mesmo concordando em se casar, de modo que acredito que não importa quem esteja do outro lado da linha. Só importam sua experiência e percepção.

- Você acredita que outras pessoas pesquisarão esse campo de conhecimento?
Na verdade, recentemente fui procurado por uma mulher na University of Washington que deseja escrever uma tese sobre relações entre humanos e robôs.

- Quais direções você tomará agora?
Estou escrevendo um trabalho acadêmico sobre o tratamento ético dos robôs. Não só sobre a ética ao programar robôs para que façam certas coisas – as pessoas discutem se deveríamos programar robôs para irem a combate e matar pessoas, por exemplo –, mas também sobre uma forma ética de tratar os robôs. Se tratarmos os robôs de forma antiética, essa não seria uma lição realmente ruim a se ensinar às pessoas e às crianças? Se dermos a impressão de que não há problemas em tratar mal os robôs, isso não passaria uma mensagem negativa sobre as criaturas vivas? Os robôs certamente conseguem passar a impressão de que estão vivos.

- O que sua esposa pensa a esse respeito?
Ela tem uma opinião completamente diferente da minha. Ela não faz parte da comunidade científica – sua formação é em língua inglesa e dramaturgia; não se interessa por computadores ou robôs ou IA. Era totalmente cética quanto à idéia de que os humanos poderiam se apaixonar por robôs. Ela ainda é bem cética a esse respeito, mas está começando a reconhecer que algo desse gênero acontecerá.

- O que acontece se daqui 50 anos suas previsões não se provarem verdadeiras e os humanos e robôs não se casarem?
Sei que muitas pessoas acham a idéia totalmente bizarra. Mas estou realmente convencido de que isso é inevitável. Ficaria muito espantado se no final estiver errado – tudo bem se eu errar por alguns anos, mas não se estiver completamente enganado.

Fonte: UOL Notícias


Rainha Maria - Todos os direitos reservados
É autorizada a divulgação de matérias desde que seja informada a fonte.
https://www.rainhamaria.com.br

PluGzOne