Santa Francisca Romana sobre o inferno e como se precaver contra as insídias diabólicas. Ela viu as hierarquias de demônios, suas funções, seus suplícios e os crimes a que eles presidem


24.04.2017 -

Santa Francisca Romana (1384-1440), de nobre e rica família, casou-se muito jovem, teve três filhos, fundou as “Oblatas de Maria” e em março de 1433 também fundou o mosteiro em Tor de' Specchi, perto do Campidoglio (Roma).

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Quando seu marido morreu, em 1436, ela se mudou para esse mesmo mosteiro e se tornou a prioresa.

Ernest Hello, em sua obra “Physionomies de saints”, escreve o seguinte sobre a santa:

“A vida de Francisca reside nas visões. Suas visões mais singulares, mais estupendas, mais características, são as visões do inferno. Inúmeros suplícios, variados como os crimes, lhe foram mostrados no conjunto e nas minúcias”.

“Santa Francisca Romana viu o ouro e a prata derretidos, acumulados pelos demônios nas gargantas dos avarentos”.

Ela descreveu o inferno, onde reina uma ordem às avessas, quer dizer a desordem como o princípio constitutivo da anti-ordem de satanás:

O que é uma pessoa passar uma hora com ouro ou prata derretidos e quentes dentro da garganta, sem anestésicos, sem os mil cuidados dos nossos hospitais?

Então, imaginem o que é passar a eternidade com ouro e prata derretidos na garganta. Querer engolir e não poder, queimaduras horrorosas, sensações atrozes.

Tudo isto Santa Francisca Romana viu como martírio dos avarentos.

“Viu as hierarquias de demônios, suas funções, seus suplícios e os crimes a que eles presidem”.

“Viu Lúcifer, consagrado ao orgulho, chefe geral dos orgulhosos, rei de todos os demônios e de todos os condenados. Esse rei é muito mais desgraçado do que todos os seus súditos”.

Viu, portanto um quadro completo: a hierarquia existente, o que cada demônio faz, os suplícios que sofrem e os crimes a que presidem.

Normalmente, todo rei deve ser mais feliz do que seus súditos, mora num lugar de delícias, está num trono. Um demônio, não; é mais infeliz; o rei da desgraça tem que ser mais desgraçado e, por causa disso, é ordenado que Lúcifer seja mais infeliz de todos.

“O inferno é dividido em três partes: o inferno superior, o inferno médio e o inferno inferior. Lúcifer está no fundo do inferno inferior”.

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“Sob Lúcifer, chefe universal, acham-se subordinados três chefes a ele e prepostos aos demais”.

É claro, é o rei das trevas e da desordem. Nas coisas que são de Deus, o rei está acima. Mas o rei da desgraça, do crime, da infâmia, está abaixo de todos.

Ele é uma espécie de “vigário geral” para cada um dos setores do crime...

“Asmodeu, que preside os pecados da carne, era um querubim”.

“Mamon, que preside aos pecados de avareza, era um trono”.

“Belzebu preside aos pecados da idolatria”.

Os senhores vejam as tristezas: um querubim que brilhava como um puro espírito, santo aos olhos de Deus e que se transforma no demônio do pecado da carne.

Todo crime ligado às práticas de magia, do espiritismo etc., é da alçada de Belzebu. Naturalmente, a heresia, as más doutrinas, os erros contra a fé etc., são da alçada de Belzebu.

Então, vemos os quatro pecados: impureza, orgulho, avareza e idolatria. Essas são as grandes avenidas da infâmia, do crime e do inferno.

“Belzebu é particular e especialmente o príncipe das trevas. É torturado pelas trevas e é por meio das trevas que tortura suas vítimas”.

Ele está uma cegueira profunda e irremediável, num embotamento do espírito total e trágico, em que nada adianta nada. Ele mesmo sente sua própria insuficiência mental e, com isto, atormenta também as vítimas dele que caíram no inferno.

“Uma parte dos demônios fica no inferno; outra reside no ar e outra reside entre os homens, buscando a quem devorar”.

“Os que ficam no inferno dão as suas ordens e enviam seus deputados; os que residem no ar agem fisicamente sobre as perturbações atmosféricas e telúricas, lançam por toda parte influências más, empestam o ar física e moralmente”. Há, portanto, três “habitats” de demônios.

A ideia do ar moralmente empestado é muito reveladora. Em certas grandes metrópoles, por exemplo, quando a gente avista ao longe São Paulo, vê-se uma espécie de névoa pairando sobre a cidade e que é a síntese de todas as poeiras, sujeiras e impurezas danosas para a respiração.

Os médicos legistas, nos necrotérios, vendo o pulmão do morto sabem se a pessoa morou em uma metrópole ou no interior do Estado. O pulmão de quem morou no interior é rosado e o de quem morou, por exemplo, em São Paulo é carregado desses ares poluídos.

Tem-se a impressão de qualquer coisa de maldito pairando no meio dessas influências físicas más. Isto é o resultado da ação de demônios dessa natureza.

“O seu escopo é principalmente debilitar a alma. Quando os demônios encarregados na terra veem uma alma debilitada pela influência dos demônios do ar, atacam-na no seu esmorecimento para vencê-la mais facilmente”.

“Atacam-na no momento em que ela desconfia da Providência”.

Por vezes passando por algum lugar percebe-se que ele é mais propício ao pecado. Não é absurdo admitir que aquele lugar seja infestado por algum demônio do ar, que o empesta, que cria ali condições inconvenientes para a prática da virtude.

Depois, um demônio da terra atua ali mesmo e na ação que ali desenvolve, atormenta, persegue a alma, já debilitada, para ela cair mais depressa.

Por isso é tão recomendável o “Livro da Confiança” (do Abbé Thomas de Saint Laurent). Porque quando se desconfia da Providência é a hora em que todas as tentações vêm. Enquanto a pessoa é confiante, a tentação pode vir, mas tem um âmbito restrito.

“Esta desconfiança de que os demônios do ar são especialmente inspiradores preparam a alma para a queda que os demônios da terra dela vão solicitar”.

Essa tentação pode vir assim: “Não adianta resistir... Você vai cair mesmo... Renda-se, entregue-se!...” Isto já é o demônio da terra que está preparando o campo para o pecado próximo.

“A partir do momento em que ela esteja enfraquecida pela desconfiança, inspira-lhe o orgulho, em que ela tanto mais facilmente cai, quanto mais débil se encontre”.

“Quando o orgulho lhe tenha aumentado a fraqueza, chegam os demônios da carne que lhe insuflam seu espírito; quando os demônios da carne a enfraqueceram ainda mais, chegam os demônios incumbidos dos crimes de dinheiro”.

E quando este (demônio do dinheiro) tenha nela diminuído mais ainda os recursos da resistência, chegam os demônios da idolatria que completam ou rematam o que os outros começaram. E assim é uma crise espiritual completa”.

Quer dizer, a pessoa tentada fica amuada e irritada, com seu orgulho ferido: é o demônio que está inspirando o orgulho à pessoa.

Portanto, há um espírito do demônio da carne que toma conta da pessoa quando ela não se prepara e não se fecha à tentação. Depois vem, então, o amor à ganância.

Começa pela desconfiança em Deus, passa para a impureza, depois ao orgulho, chega até a avareza e acaba na idolatria. E é o esboroar completo da alma através de ondas sucessivas de demônios que lhe vão atacando.

“Todos se combinam para o mal e aqui se tem a lei da queda: todo pecado no qual se apraz arrasta a outro pecado. Assim, a idolatria, a magia e o espiritismo aguardam no fundo do abismo aqueles que de precipício em precipício lhe escorregam nas cercanias.

“Todas as coisas da hierarquia celeste são parodiadas na hierarquia infernal. Nenhum demônio pode tentar uma alma sem licença de Lúcifer.

“Os demônios que estão no ar ou na terra não sofrem atualmente a pena de fogo, mas aturam outros suplícios terríveis e particularmente à vista do bem que fazem os santos”.
O demônio fica atormentado ao ver o bem que fazem os santos e aqueles que não são santos, mas que procuram imitar os santos.

Os demônios sofrem terrivelmente vendo um ato público de virtude. Porque eles sofrem mais em ver o bem do que em todos os tormentos do inferno.

Houve um Santo que chegou a dizer o seguinte: o fato de Deus mandar o demônio para o inferno, foi também um ato de misericórdia, porque o demônio sofreria muito mais se tivesse que ver a Deus.
Ele odeia tanto a Deus, que prefere os piores tormentos do que estar vendo a Deus. Por causa disso o tormento do ato de virtude lhe é crudelíssimo. O homem que faz o bem inflige ao demônio uma tortura tremenda.

“Quando Santa Francisca era tentada, sabia pela natureza e pela violência da tentação de que altura caíra o anjo tentador e a que hierarquia pertencera”. Isto é entender do assunto!... Saber se foi tentado por um querubim, ou por um trono! Vejam que admirável! O que é o discernimento dos espíritos de uma santa

“Porém, quando uma alma é salva, também o demônio tentador é escarnecido pelos outros demônios”.

“É conduzido perante Lúcifer que lhe inflige um castigo especial, distinto das suas outras torturas”.

Deve ser uma cena de uma molecagem infame quando um demônio volta frustrado para o inferno após haver fracassado!...

Uma sarabanda de caçoadas terríveis, de apodos etc., em que ele volta zombando também e todos os demônios se recolhem frustrados aos seus respectivos antros e lá ficam coaxando eternamente, até vir sobre eles um novo tormento igualmente merecido.

Assim se pode ter uma alegria a mais rechaçando o demônio tentador porque sabemos que aquele demônio vai para o inferno sofrer um tormento especial e que a alma tentada é vingada.

“Este demônio entra às vezes, em consequência, no corpo de animais ou de homens e então faz-se passar pela alma de um morto.

“Quando o demônio conseguiu perder uma alma, após a condenação dessa alma, torna-se o tentador de outro homem, porém é mais hábil do que na primeira vez. Aproveita a experiência que lhe deu vitória, é mais hábil e forte para perder”.

Isso fala em favor da tese de que há um “demônio da perdição” de cada um assim como existe também um Anjo da Guarda.

Isto é muito bom para adquirirmos um verdadeiro ódio ao nosso “demônio da perdição” e para tomarmos uma tática de combate em seu confronto.

Devemos pedir a Santa Francisca Romana que ela nos dê o suficiente discernimento para compreendermos quais ações são do demônio, para odiá-las e talhá-las logo que se iniciam.

Muitas vezes o demônio se apresenta por vias indiretas, sugere-nos coisinhas que parecem insignificantes, uma pequena ideia fixa a respeito de uma ninharia. Por exemplo, uma pessoa que nos olhou de modo “atravessado”.

E a gente começa a achar meio deleitável pensar nisto: “o que aquele fulano fez? Ele me olhou de atravessado!... Lembra-se de tal caso? De tal outro?”

É a ação do demônio... E como é que a gente faz? Corta essas coisas no começo! Há um princípio de sabedoria que diz “principia obstat”, corte no começo! Caso contrário, não adianta.

Tudo quanto é ideia fixa, gosto de ficar se remoendo com ideias que aborrecem, agitação, perturbação, isso é início da ação diabólica que deve ser cortado energicamente!

Vamos Santa Francisca Romana nos dê o discernimento de tudo isto e nos faça compreender como o católico precisa estar preparado para lutar contra essa pluralidade de influências.

E nos previna contra uma doutrina errada mas tão frequente de que a tentação do demônio só é aquela que nos leva diretamente para o pecado e que quando não leva para o pecado diretamente, isso não é do demônio.

Não senhor! Aquilo que prepara o ambiente para o pecado, já é tentação do demônio.

Então, as perturbações, as cóleras, as agitações, as fermentações da imaginação, facilmente podem ser tentações do demônio e a gente precisa se precaver contra elas.

Vamos pedir a Santa Francisca Romana que nos dê uma clara e lúcida visão dessas verdades.

Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de palestra em 8 de março de 1967

Fonte: https://aparicaodelasalette.blogspot.com.br

 

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